Foto - Marcela Saraceni/Cadenza Filmes
Nos dias 27, 28 e 29 de março, em Armação dos Búzios (RJ), o Fórum Anual 2026 do PEA Rede Observação reuniu a equipe técnica e os 11 grupos prioritários do projeto. As apresentações foram organizadas a partir dos resultados da atuação dos eixos metodológicos e dos articuladores locais no território. O evento promoveu a troca de experiências, saberes e o protagonismo de pescadores artesanais, agricultores familiares, quilombolas e marisqueiras.
O eixo de Educação Ambiental (EA) construiu um percurso de apresentação com base na reflexão crítica sobre as vivências e o fortalecimento da organização comunitária. Ao longo de 2025 os comunitários percorreram um caminho pedagógico estruturado a partir das etapas de mobilização, escuta ativa, reflexão e formação, organização comunitária e realização de articulações e parcerias. Para evidenciar as pautas dos grupos, durante este encontro foi elaborado um mural de reivindicações, composto por fotografias e legendas, que permaneceu em exposição ao longo de toda a programação. Também foram apresentados avanços e conquistas das comunidades.
.O eixo de Pesquisa Social (PS), que investiga os impactos da cadeia produtiva de óleo e gás sobre os territórios e modos tradicionais de vida dos sujeitos da ação educativa do PEA Rede Observação, abordou o lugar das comunidades tradicionais em um mundo em constante mudança. Durante um processo participativo com os articuladores e com os grupos, o eixo identificou e discutiu os impactos percebidos, construiu, junto a cada comunidade, uma árvore de impactos da indústria de petróleo e gás e, ao longo de sete encontros, promoveu debates sobre territórios tradicionais, a história da indústria do petróleo no Brasil, os impactos socioambientais e a caracterização dos bens e serviços públicos nos territórios.
Já o eixo de Comunicação Popular (CP) desenvolveu a atividade “Vozes do Território”, na qual os participantes, divididos por município, criaram palavras de ordem a partir de suas lutas e os registraram em cartazes para depois simular um ato social ao pronunciar em voz alta e coletivamente. Também foi apresentado o papel da comunicação popular como instrumento de mobilização, agitação e divulgação das lutas, reivindicações e conquistas dos setores organizados do povo, destacando a possibilidade de utilização de diferentes formatos conforme as estratégias adotadas: materiais impressos (boletins informativos, panfletos), áudios (podcasts comunitários) e outros suportes, como cartazes, faixas, músicas e palavras de ordem.
As cenas construídas a partir do eixo de Teatro do Oprimido (TO) foram apresentadas pelos grupos de Rio das Ostras (RJ), Presidente Kennedy (ES) e Campos dos Goytacazes (RJ). Em um segundo momento, os educadores ambientais Manu Marinho e Júlio Caldeira apresentaram, por meio de slides, os avanços das cenas e o desenvolvimento dos grupos desde o início do PEA Rede Observação.
Em Rio das Ostras, a cena retratou o momento em que agricultores familiares da zona rural, na localidade de Cantagalo, se mobilizam ao saber que apenas 1 km do território seria contemplado no estudo para a elaboração do Plano Municipal de Saneamento Básico.
Em Campos dos Goytacazes, a apresentação abordou a realidade de quilombolas de Lagoa Fea, que atualmente enfrentam dificuldades de acesso à lagoa devido à instalação de uma cancela por uma fazendeira. Antes livre, o acesso passou a ser restrito.
Já em Presidente Kennedy, a cena chamou atenção para a importância da Serrinha, morro simbólico para a fé dos agricultores familiares do Assentamento José Marcos de Araújo. Parte da área, no entanto, vem sendo impactada com implosões, o que tem gerado transtornos para a comunidade.
A Comunicação Institucional apresentou um balanço do primeiro ano de atuação no PEA Rede Observação, com destaque para as principais estratégias adotadas ao longo do período. Entre os pontos abordados estiveram o vídeo curto do Fórum 2025, o processo de estruturação da área, os registros da participação dos grupos em espaços de decisão, os dados das redes digitais, o vídeo curto das devolutivas 2025, e o papel da comunicação no contexto de mitigação de um projeto de educação ambiental. A apresentação evidenciou que a construção da área tem como base a participação em reuniões de orientação metodológica, o envolvimento nas formações do Plano de Trabalho e a escuta ativa dos articuladores locais. A estratégia prioriza a qualidade dos conteúdos, o protagonismo dos atores sociais e a definição de pautas alinhadas às demandas dos grupos. As prioridades da Comunicação Institucional estão centradas na produção de depoimentos, na organização de dados e na identificação do poder público. Essa estrutura direciona o protagonismo para as comunidades tradicionais a partir do processo educativo conduzido pelos eixos metodológicos, fortalece a luta e a memória coletiva e publiciza a partir do grupo.
Mapa Vivo de Conflitos e Resistências
A atividade pedagógica teve como proposta a criação de um mapa vivo de conflitos e resistências, com o objetivo de construir coletivamente uma leitura crítica, local e regional sobre a relação entre os impactos da indústria de petróleo e gás com os conflitos socioambientais enfrentados pelas onze comunidades participantes do PEA em seus territórios. A atividade articulou corpo, território e narrativa, permitindo que os participantes não apenas falassem sobre os impactos e sua relação sobre os conflitos, mas também os representassem, analisassem e comunicassem coletivamente.
O formato de “mapa vivo” favorece a visualização das conexões regionais da Bacia de Campos e reforça a dimensão política da Educação Ambiental Crítica. Para a execução da atividade, foram utilizados um mapa ampliado da Bacia de Campos, impresso em lona, mapas individuais em tamanho reduzido, adesivos representando os conflitos socioambientais, canetas, fitas adesivas, papel, pranchetas e apitos para marcação de tempo.
Os eixos responsáveis pela condução da atividade foram Educação Ambiental, Teatro do Oprimido, Pesquisa Social e Comunicação Popular. Ao final, cada grupo apresentou um panorama sobre o que foi debatido, mostrando no mapa os conflitos identificados, os impactos relacionados a eles e as transformações causadas em seu território. A atividade foi encerrada com uma síntese conduzida pelo orientador metodológico do projeto Carlos Frederico Loureiro.
‘Amanhecer os Quintais’, por Rodrigo Lima
As dinâmicas foram estruturadas como um percurso pedagógico voltado à construção de confiança, presença e pertencimento entre os participantes, com base em jogos teatrais e estímulos à imaginação.
No primeiro dia, a atividade “A Travessia” promoveu integração e escuta ativa, criando um ambiente de acolhimento e engajamento. À tarde, a “Dinâmica do Retorno” buscou restabelecer o foco do grupo após o intervalo, com exercícios leves de relaxamento e atenção.
No segundo dia, a proposta “Amanhecer os Quintais” mobilizou memórias e vivências dos participantes, que representaram seus territórios por meio de cartografias afetivas. As produções foram aprofundadas no período da tarde, com a inclusão de novas camadas visuais e relatos, evidenciando identidades e conexões entre os grupos.
No encerramento, as dinâmicas convergiram para a construção de um território coletivo simbólico, reunindo diferentes experiências em uma síntese marcada pela integração, expressão e pertencimento.
Depoimentos
Denaildes Mariano – Agricultor Familiar
O que mais gostei foi conhecer tantas pessoas especiais. As dinâmicas com o Rodrigo foram muito boas, e a apresentação do Teatro do Oprimido do quilombo foi maravilhosa.
Edina Vanuza Silva - Agricultora Familiar
Eu gostei de tudo, foi realmente maravilhoso. Conheci pessoas com lutas parecidas com as minhas, e outras até maiores, mas percebi que todos tinham o mesmo propósito. O mais incrível é que, além do conhecimento, as pessoas se importam umas com as outras.Foi a minha primeira vez, sou muito grata por tudo. Que venham os próximos!
Fabiana Viana Quintanilha – Pescadora Artesanal
O que mais gostei do Fórum foi ver a importância do projeto em cada comunidade tradicional e o trabalho coletivo acontecendo de forma organizada. Tivemos trocas e experiências muito importantes, e deu para perceber que muitas comunidades passam por conflitos e impactos parecidos. O melhor foi saber que unidos podemos conseguir soluções para resolver!
Verônica Delfino - Marisqueira
A experiência que tive no fórum foi reconhecer que não estamos sós, que há outros em uma luta parecida com a do meu grupo, em espaços geográficos diferentes. O fórum nos ensina, nos orienta a dar passos e fortalece a nossa voz para avançar e alcançar nossos objetivos.
Com metodologias da educação ambiental crítica, o projeto busca o fortalecimento e a autonomia dos grupos locais.
A realização do PEA Rede Observação é uma medida de mitigação exigida pelo
Licenciamento Ambiental Federal, conduzido pelo IBAMA.